January 19, 2008
DEUS NÃO EXISTE!
Versado para o português de Portugal por Rodrigo Teixeira
Há crianças por todos os lados, mulheres a implorar a Deus por salvação, enfermeiros em correria, médicos estressados... Esta é a rotina de todo U.T.I. (Unidade de Tratamento Intensivo) infantil!
Com os cabelos desarrumados e a roupa simplória, a jovem busca o leito de número 22, pois lá está seu filho de cinco anos, em coma há dois dias, víctima de leucemia. Ao não conseguir um dador de medula compatível, o miúdo passou a definhar rapidamente. E a jovem mãe, viúva há alguns anos - seu esposo faleceu da mesma enfermidade, passou a morar no hospital, na esperança de que ao menos o filho se curasse desse mal; esperança essa que morre aos poucos, pelo facto da doença agravar-se a cada dia.
Uma brisa fria desce do céu, invade o corredor, toca-lhe os cabelos, acaricia-lhe a face... A sensação de perda é inquietante! Joana chora, teme entrar no quarto e não mais encontrar seu pequeno João. Como dói o coração de uma mãe ante a perda de um filho, não é? Talvez seja a pior das dores já concedidas pela natureza!
Ao entrar no quarto, encontra sua mãe, uma senhora de sessenta e poucos anos, orando em sussurros. Na outra ponta do quarto, sua sogra, com o esposo, acompanham tudo em silêncio, não há mais nada a faz pelo neto, a não ser aguardar o seu vôo a terras distantes e desconhecidas pelo homem.
O aparelho que acompanha os batimentos cardíacos do menino toca, o pânico toma conta dos presentes, enquanto o médico e algumas enfermeiras adentram ao quarto. Os olhos da mãe, de um vermelho sangue, encontram-se aos do doutor, que tenso, pede a todos que se retirem.
_Meu filho...! Não o deixe ir em embora, doutor Pedro! Salve-o!!!
_Farei o que for possível, mas agora saia! Precisamos de espaço! Por favor!
_Salveeee meu filho – implora a mulher, em soluços, segurando-o pelo braço.
_Por favor! Deixe-me agora!- solicita, tentando libertar-se da mulher para, talvez pela última vez, reverter a parada cardiorrespiratória do menor. Enfermeiras, tirem-nos daqui! Todos!!! E me tragam o desfibrilador... Agooooooora!!!
Antes mesmo que as enfermeiras atendessem às ordens do doutor, a jovem, após muita resistência, termina empurrada pelos próprios familiares ao corredor. E de lá acompanha as tentativas clínicas de ressuscitação.
_Tenha fé em Deus, minha filha!!! – suplica sua mãe, com os olhos marejando. Nosso senhor Jesus Cristo ouvirá nossas preces...
_Que Jesus Cristo? Quem é esse?.. – diz Joana, a esmurrar a parede.
_...é o filho de Deus, minha filha!- entrecorta-lhe a mãe.
_Deus??? Quem é Deus? – pronuncia, num misto de rancor e descrença. Quem é Deus? Ele não existe! Levou meu marido e agora leva meu filho...
_ Tu não sabes o que diz, minha filha!
_ A senhora é uma parva! Será que está cega? Seu neto está indo embora... -diz, enquanto assiste à criança receber novo choque. E Deus nenhum está aqui!
_Por que blasfemas assim, Joana? Deus está aqui sim! –sentencia a mulher, com uma das mãos agarrando com força uma Biblia enquanto a outra acaricia os cabelos da filha.
_OOOONNNDEEEE??? Mostre-me ele! Mostre-me!!! Se tu estiveres aqui, Deus, que apareça... vamos, onde estas? – grita, ensandecida, pelos corredores. Onde estas???
Sua mãe entra em pranto, sendo prontamente atendida pelos pais de seu falecido genro.
_DEUS NÃO EXISTE, MINHA MÃE! DEUS NÃO EXISTE! É MAIS UMA DAS LENDAS DO HOMEM... – berra, afastando-se, aos tropeços, pelo corredor. DEUS NÃO EXISTE! NUNCA EXISTIU!!!
Nesse momento, após duas tentativas, o coração de João volta a bater... mais uma vez! O médico, não acreditando que aquilo fosse possível, sorri, ainda que o choro lhe ameaçasse recair sobre a face.
_Isso é um milagre! – profere uma das enfermeiras.
_Milagre!!? Seja lá o que for, uma coisa é certa: em toda minha vida, e olha que são longos anos, nunca vi um miúdo querer viver tanto como esse João. Quando penso que ele partirá, volta do nada, como se ainda não tivesse concluído sua missão neste planeta. E se isso for mesmo um milagre, hei de creditá-lo nos registros da incrédula Ciência. Agora vamos, deixe-o descansar... não quero ninguém aqui! Esse menino... bem, diga à mãe dele que...ah, não diga nada! VAMOS!!!
Ao saírem, são abordados pelos parentes do garoto e, para evitar ainda mais tumulto, todos são conduzidos a uma sala reservada.
A porta se abre, um outro médico entra no quarto e se aproxima de João, com visível serenidade estampada à face. Pegando a criança pelo pulso, pergunta:
_Como está, Joãozinho? Melhor? Ei, acorde! Já dormistes demais, não achas? –sorri. Acordes, dorminhoco!
Aos poucos o menino percebe novamente a luz, o dia, o quarto e o rapaz que está ao seu lado.
_Que-quem és tu? Tu não és o meu médico! O que faz aqui!
_Vim vê-lo! Estava com saudades!
_E tu me conheces? – pergunta o garoto, numa voz enfraquecida.
_Digamos que sim! Vim despertá-lo! Há quanto tempo estás a dormir? Já não é hora de levantar, brincar com outras crianças?
_Eu estou muito doente, senhor! – titubeia o menor.
_Doente? Quem disse? Você está muito bem, olhe para si mesmo, perceba o sopro da VIDA invadir seus pulmões, correr suas veias, bombeando o sangue que leva esperança e amor a todas as células de nosso corpo...
_Sim... sim... mas eu tenho uma doença...
_Não há doença alguma! – entrecorta-lhe, com o semblante iluminado por um sorriso celestial. Veja... - o homem lhe dá a mão e, vagarosamente, o levanta -... quem está doente é capaz de levantar-se da cama para abraçar a um velho como eu? Não! Quem está doente, fenece como as flores no inverno; não irradia vida como os pássaros na primavera.
_Então eu não tenho mais nada? – inquire o menino, com os olhos luzentes, como se o que tinha passado há pouco nunca existira.
_Exatamente! Está na hora de ir embora daqui, não achas? Tem um mundo lá fora a esperarte, mas, olhe, nunca se desvie do caminho do bem...
Os dois se abraçam.
_Agora preciso ir, há outros que ainda preciso visitar antes de ir embora. Sabe, ser médico não é fácil, porque o que está em jogo todo o tempo é a vida humana, o bem divino de maior valia, que o homem deveria prezar com todo o amor possível! Infelizmente, o homem ainda não aprendeu a amar e não sei quanto tempo mais terá para conseguir realizar este feito... Mas vamos mudar de assunto, isso é conversa para adultos e não para um puto lindo como tu!!! Antes que me esqueça, trouxe-lhe um presente... - o homem lhe dá um carrinho. Espero que possa brincar muito ainda com ele.
Minutos se passam...
Dispara a campainha no leito 22. O médico e os familiares correm para o quarto, a possibilidade de João se entregar à escuridão da morte. Ao entrarem, todos começam a chorar. João está sentado na cama, a sorrir, com os grandes olhos vivos e a face tomada por um brilho só visto nos olhares de mães quando dão a luz.
_O que estás a passar aqui? – pergunta o médico à enfermeira que disparou a campainha.
Ela nada responde.
_Mãe!!! Tu também estas aqui? Pensei que tivesse me deixado... – diz o garoto, numa grande felicidade, ao ver Joana a chegar ao quarto.
_Não, meu beb-be-bebé! – as palavras que lhe saem da boca trepidam assim como sua carne, por ora envelhecida pelo sofrimento. Você está bem? Mas... mas... doutor – vira-se para o médico, o que estás a passar aqui? Ele... ele....
_DEUS EXISTE, MÃE! – diz o menino, já em seu colo.
_O que disse, filho? – pergunta a mulher, aparvalhada, como se não quisesse acreditar na afirmativa de João. Quem existe?
_DEUS! Aquele homem me disse e pediu para que eu também lhe dissesse que o papai não lhe foi tirado, sua missão na terra já havia sido cumprida, que era a de me trazer ao mundo.
_Não entrou ninguém aqui, doutor! Isso posso garantir, pois fiquei o tempo todo diante da porta - diz uma das enfermeiras, assustada com o relato do miúdo.
_Filho, olhe para a mamãe, e diga apenas a verdade... Quem esteve aqui?
_Um homem, ele também é médico, e até brincou comigo.
_Com esse carrinho? – interrompe-lhes a mãe de Joana, mostrando o brinquedo e a olhar com fervor para os olhos da filha.
_É vó! Com esse carrinho...
_ENTÃO DEUS EXISTE!!! Bom saber, não é, Joana?– revida a senhora, com a cabeça altiva e o semblante avermelhado, fixando-se directamente nos olhos da filha.
Publicado por Carlos Rogério Lima da Mota às 05:22 PM | Comentários (11)
OS HERÓIS DE UMA INFÂNCIA QUASE ROUBADA
(Adaptado para Portugues de Portugal por Rodrigo Teixeira & Marco Longo)
O pai chega do trabalho. Está exausto. Foram mais de oito horas nocturnas a enfrentar o caos urbano, a exercer uma das profissões menos desejadas da actualidade, a carregar nas costas o dever de manter a ordem pública a qualquer custo: polícia.
Após um bom banho, deita-se e adormece a contrariar uma rotina diária: guardar o cinturão com a pistola calibre 38 num local seguro, inacessível ao filho ou a qualquer outro civil.
Viúvo, além das ruas, tem que manter a organização da casa, os cuidados com a mãe de setenta e três anos e a educação do filho de oito anos - um miúdo lindo, esperto e de um refinamento sublime. O seu sorriso ostenta o retrato intermitente da mulher que o céu lhe levara por orgulho ou plena inveja.
As horas caminham... Ao levantar-se, o pequeno corre para o quarto do pai. Quer dar-lhe um beijo, revê-lo, como faz todas as manhãs. Mas este dia será diferente. Sobre o sofá há algo que lhe desperta a atenção, aguçando-lhe a curiosidade - parasita que há séculos conduz o homem a caminhos ambíguos.
A calçar sapatilhas cujos ruídos são quase imperceptíveis, caminha em direcção ao cinturão. Quer tocá-lo, ter aquilo que carrega em mãos, matar o desejo sagaz de poder, enfim, ser um polícia como o pai, para matar bandidos, cumprir a lei, ser um herói como os do cinema, desses como Homem-Aranha... Espere aí! O Homem-Aranha não usa armas, pelo menos não de metal. Então, seria o Batman. Ele sim cria suas armas! E que armas! Mantendo o silêncio e com o cinturão em mãos, retorna ao seu quarto.
Está eufórico. Os seus olhos reluzem como faróis em alto-mar. Enfim, ele deixaria de ser um simples mortal para exercer o papel do “senhor de todos os poderes”. Aquele que não tem medo de nada, que mata sem dó, em nome de uma Justiça que só existe nas linhas inspiradas do cartoonista Stan Lee. Com o lençol amarrado ao pescoço a fazer de capa e o cinturão do pai pendurado à cintura com a ajuda de um cordel, pula para a cama e finge, ao viajar na própria imaginação - fértil como ervas daninhas - ser indestrutível, o defensor dos fracos e oprimidos.
Ao tocar na arma, a brincadeira acaba. A curiosidade sobe-lhe pela veia até chegar à mente que, sem qualquer resquício de remorso, faz tomá-la nas mãos. Em frente ao espelho do guarda-roupa, ele diz em sussurros: “Sou o super... super... é... o Batman!” Mas a ingenuidade não imita a arte, nem a vida real manipula a fantasia; a fantasia é quem manipula, em muitos casos, a vida real, tornando-a palco de tragédias que vão de Shakespeare a Nelson Rodrigues.
E com a pistola calibre 38 em mãos, exibe-se perante o espelho quando percebe estar a faltar algo para completar a fantástica aventura ao mundo nada crível dos poderosos da Marvel. Uma máscara! Isso, uma máscara! Procura um papel; não encontra. É quando se dá conta que o seu material da escola está na cozinha, mas teme abrir a porta e despertar o pai que, ao vê-lo com seu cinturão e a sua arma nas mãos, poderia dar-lhe uma sova. Assim, resolve fazer o herói sem máscaras, o primeiro super com a identidade revelada! Mas a fantasia parece novamente ruir quando os raios solares atingem a arma e reflectem para olhos do menino que, enfeitiçado, levanta-a até a altura da cabeça e, vendo-se ao espelho, aproxima-a devagar da fronte.
Com os dedinhos no gatilho, parece perder a razão. Naquele momento não há mais um mortal diante de uma arma, há um Deus da banda desenhada diante de um arqui-inimigo. O vencedor herdará o direito de ter o seu rosto estampado em todas as capas de revistas e jornais de todo o mundo. E na batalha que se aproxima apenas um sairá vencedor. Ao que parece, a arma que enfeitava as vestimentas do herói revolta-se e quer agora dominá-lo assim como dominara toda a raça humana, levando biliões para sete palmos abaixo da terra. E assim acontece! Com a arma rente à cabeça, inebriado por um devaneio letal, dispara. Ouve-se um grito ensurdecedor!
“FILHO! FILHO!!! FALA COM O PAPÁ... FALA!!! POR AMOR DE DEUS!!! –diz, pegando-o ao colo, após pressentir a desgraça, acordar, dar pela falta dos seus instrumentos de trabalho e invadir o quarto do pequeno. FALA COM O PAPÁ! MEU DEUS! – chora desvairado, culpando-se a si próprio pela tragédia.
“Pai... vais bater-me? – rompe o desespero uma voz quase inaudível, amedrontada, como se resgatada do precipício da morte.
A arma não estava carregada. Mas podia e esta história deixaria de ser mais um conto de fadas e heróis norte-americanos para se transformar em capa das páginas policiais.
*E-mail: professorcarlosmota@yahoo.com.br
*E-mail adaptadores: roddymex@gmail.com
Publicado por Carlos Rogério Lima da Mota às 05:15 PM | Comentários (0)